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O neo-surrealismo de José
Maria
Flávio R.
Kothe
O tronco de uma árvore sem
galhos nem folhas, sem
transcendência nem esperança,
mas com um olho no centro, a
mirar o espectador, como a
perguntar-lhe: o que tem feito o
homem com a natureza?
Uma ave de rapina ataca um corpo
exposto, como se mais uma vez
Prometeu fosse acorrentado por
querer ajudar os homens; um
livro queima no ar, como se se
extinguissem os bons espíritos
numa era em que a terra se
mostra árida e seca, quando a
bondade mal sobrevive, quase se
extingue, sob a garra da
ganância.
O contorno de uma figura de
Rafael perde o rosto no azul do
infinito, enquanto a mão
esquerda segura uma corda que
liga ao transcendente uma pomba
da paz, sem cabeça, pousada num
cesto de frutas. À direita da
figura, o corpo de um homem,
cuja cabeça é apenas uma maçã
rachada, cujo topo fumega como
se fosse um vulcão. Livros se
espelham a cada lado, porém
fechados, sem dizerem o seu
dizer.
Um pobre menino flutua no ar,
acima do campo, enquanto a sua
caixa de engraxate deixa cair
letras, números, pedaços de
melancia, todas as pequenas
realidades e sonhos.
Assim vai se formulando, de
quadro em quadro, a reflexão
neo-surrealista de José Maria
Machado, inventando-se uma
realidade para definir-se diante
dessa que o cotidiano lhe impõe
aos olhos. Ele não quer, porém,
inventar mais uma vez o já
inventado: não se trata de
requentar Dali aqui, com uma
cabaça para conferir-lhe uma
pitada de cor local. Isto seria
atestar, mais uma vez, a
dependência cultural, com o
atraso e anacronismo típicos dos
imitadores, a fazerem de conta
que é arte a mera cópia servil e
menor do que já foi consagrado
na metrópole de preferência.
Usar o termo surrealismo
apontaria para um movimento de
natureza inclusive política.
Embora aqui se queira atuar na
sociedade com uma perspectiva
crítica, não se está em Paris,
prensado entre duas guerras
mundiais. Por isso, sequer se
adota o nome. Não se quer mais
uma vez macaquear a Europa, com
atraso. Ele serve apenas para
lembrar uma técnica e um estilo,
numa perspectiva que não
pretende requentar, imitando, na
colônia, o movimento francês
pretérito. Trata-se de assumir a
pós-modernidade como livre
utilização do patrimônio legado
por artistas do passado, sabendo
não só que é um nome
problemático, mas que não
resolve o gesto de criar uma
obra original, que valha e se
defenda por si.
Não, o que José Maria quer é o
direito de expor suas
preocupações e visões, expondo
com os pincéis as intuições de
uma mente moldada entre o Ceará
e a Índia. Mais que um pós-modernista
do cerrado, com os pés na terra
de Sobradinho, em contato com o
povo, tem-se uma sensibilidade
aberta para a imensidão, para a
noite que se estende entre os
morros ao norte de Brasília,
prenunciando visitas de
estranhas luzes, que se adensam
e condensam em cristais. Aqui e
ali lampejam tons dourados, que
encenam a nostalgia de um mundo
melhor e que nunca esteve
conosco: registrado em cores e
formas, torna-se presente, como
a querer tocar-nos, a levar-nos
à superação de nós mesmos, a
lembrar que também podemos, com
arte e reta intenção, ir além de
nosso tempo e nossa precária
condição. Nós não podemos saber
se iremos lograr essa
transcendência, mas podemos ter
quase a certeza, de que a arte
de José Maria há de testemunhá-la,
pois é o espaço que lhe está
reservado.
Flávio R. Kothe (1946). Contista,
poeta, ensaísta e tradutor.
Professor titular de estética na
Universidade de Brasília.
Publicou recentemente três
livros com inéditos do espólio
de Nietzsche. É autor da revisão
crítica da literatura brasileira
em quatro tomos: O cânone
colonial, O cânone imperial, O
cânone republicano I e II.
frkothe@unb.br
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http://www.revista.agulha.nom.br/ag69maria.htm
Gentileza:: Floriano Martins
[floriano.agulha@gmail.com]
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