|
O leitor insano
Camilo
Prado
O demônio é o livro, ler
é estar possuído.
Daniel Fabre
É preciso estar possesso.
Fausto Marthe (Vzyadoq Moe)
Penso que não há aqui
necessidade de definir os
múltiplos tipos de leitores
possivelmente existentes, já que
pretendo apenas falar de um tipo
que se define por si mesmo, o
tipo de leitor insano. Um tipo
raro, mas existente. Dele muitos
escritores, e leitores, estão
cientes, e eu também, pois sofro
dessa patologia. Aliás, mal
vista como muitas outras
patologias atuais.
Há quase vinte anos o governo
brasileiro vinculou na mídia
propagandas que mostravam jovens
leitores viciados em leitura.
Lembro de uma, estampada em
revistas semanais, em que
mostrava um jovem com o rosto
oculto, imagem em preto e branco,
e entre aspas “foi a professora
quem me viciou”, ou algo
semelhante. A relação com as
drogas aí era clara, por isso
aboliu-se logo das revistas e da
televisão tais propagandas de
incentivo à leitura.
A presente conjuntura política
não aceita insanidades
improdutivas, daí ser esse tipo
de leitor, que absurdamente o
ministério da educação tentou
incentivar há vinte anos atrás,
raro em território nacional. Ler
– refiro-me a livros – num
sentido geral, mesmo que
falsamente glorificado por
todos, é uma atividade quase que
clandestina, uma anomalia
espiritual. Retirar um livro do
bolso, ou de uma bolsa, em lugar
público sempre atrai um olhar
curioso, não pelo que se vai ler,
mas pelo simples fato de se
estar com um livro em punho.
Isso, exibir um livro em meio à
multidão, curiosamente, é uma
espécie de bizarria. Os olhares
já te julgam um outro, não mais
o mesmo de minutos antes. Você
se transforma, sofre uma mutação
instantânea, no simples ato de
exibir um livro em público. E
mais bizarro você se torna
quanto mais longe esteja de uma
cidade universitária. A
impressão clássica ainda
permanece, aquela de que você
deve ser inteligente, mas também
é comum a impressão de que você
deve ter “tempo” para poder ler,
ou seja, ou tem dinheiro ou é
vagabundo; desse julgamento não
se escapa! Mesmo dentro das
cercas universitárias. E aí
falam por si os olhares dos
professores quando te vêem com
um livro que não é de estudo.
Muitos escritores têm colocado a
insanidade como tema literário,
mas um em especial, me parece,
colocou a literatura como uma
insanidade em si mesma. Trata-se
de Théophile Gautier
(1811-1872), num conto
intitulado Onuphrius, em que o
personagem escritor, “saído do
arco do real, lançara-se nas
profundezas nebulosas da
fantasia e da metafísica; mas
não lograra regressar com o ramo
da oliva; não encontrara terra
seca onde pousar o pé e não
soubera reencontrar o caminho
por onde viera; quando se
apossou dele a vertigem de estar
tão alto e tão longe, não pôde
voltar a descer como o teria
desejado, e reatar com o mundo
positivo”. [1] Passando a
confundir a realidade com o
mundo dos seus escritos, perdeu
o controle de ambos. Também o
escritor austro-húngaro Arthur
Schnitzler (1862-1931), no conto
Meu amigo Ypsilon, aborda o
mesmo tema. E para não se pensar
que isso é mera ficção, é sempre
bom lembrar o caso de Honoré de
Balzac (1799-1850) que, conta-se,
um amigo o encontrou chorando no
quarto, e, perguntado sobre o
motivo das lágrimas, o escritor
respondeu que um de seus
personagens havia falecido.
Se a literatura, por um lado,
não apenas coloca a insanidade
como tema, mas, em certa medida,
o próprio artista criador como
um insano, por outro, a idéia de
leitores e da leitura é
apresentada em diversas formas,
nos mais diversos autores.
Vejamos alguns: O “Selvagem”,
personagem de Admirável mundo
novo de Aldous Huxley
(1894-1963), aprendeu a ler com
os livros de Shakespeare e todas
as suas idéias são expressas
através das falas das peças do
dramaturgo. As leituras que “des
Esseintes” (personagem de Às
avessas de J.-K. Huysmans,
1848-1907) faz, no seu quarto
abaixo do nível do chão, onde se
isola por mais de um ano, são
dos autores amigos do escritor e
que ainda hoje podem ser lidos
como crítica literária. Quase a
totalidade da novela A casa
sobre o abismo de William H.
Hodgson (1877-1918) é uma
leitura que dois amigos fazem,
durante uma noite, de um
manuscrito encontrado num local
onde vão acampar. Um manuscrito
completo é o conto de Edgar Alan
Poe (1809-1849) Manuscrito
encontrado numa garrafa. E ainda
um manuscrito é o romance de Yan
Potocki (1761-1815) intitulado
Manuscrito encontrado em
Saragoça. E de manuscritos
passamos às cartas e aos diários
e à imensa quantidade de
romances epistolares, como por
exemplo, Werther de Goethe
(1749-1832) ou O homem da areia
de Ernst Hoffmann (1776-1822), e
aos escritos em forma de diários,
aos que são supostos manuscritos
encontrados em algum lugar, e
àqueles em que há referências
explícitas a leituras,
escrituras e mesmo auto-referências
literárias. Podendo ainda
acrescentar livros como Dois
irmãos de Milton Hatoum, cujo
personagem narrador, que se
mostra aos poucos o escrevente
da narrativa, é um grande leitor,
ou ainda os escritos que “falam”
com o leitor, como nos Contos de
Belkin, de Alexandre Pushkin
(1799-1837). E chegamos a
conclusão de que a idéia da
leitura é interna à literatura.
Não apenas o óbvio: escrito é
para ser lido, mas algo mais do
que isso.
Os artifícios são inúmeros para
que um leitor, como eu, possa
deleitar-se pelas páginas
brancas ou fungosas e amareladas
pelo tempo, e insanamente alheio
ao tempo. Pois ler, creio, é a
forma mais perfeita de matar o
tempo.
Quebra
Depois de anos como freqüentador
assíduo de bibliotecas,
especificamente do setor
bellatrix, encontrei-me com uma
monumental obra, Panorama do
movimento simbolista brasileiro.
Foi uma parte importante de
minha formação autodidata, pois
eu encontrava um mestre: Andrade
Muricy. Com ele conheci
Bernardino Lopes, Emiliano
Pernetta, Pedro Kilkerry, Rocha
Pombo, Francisco Mangabeira,
César de Castro, Adelino
Magalhães e outros mais. E com
ele também aprendi a olhar com
outros olhos a literatura
nacional. Olhos de paixão, não
de estudioso. Meu olhar de
estudioso sobre a literatura
começou recentemente. E deste
olhar resultou já uma dúzia de
páginas acerca da literatura
brasileira excluída das
histórias literárias em um texto
intitulado A literatura do lado
de fora – elementos para uma
outra história da literatura
brasileira, [2] escrito de um
modo perfeitamente acadêmico, e
justamente por ter escrito
aquele de modo acadêmico,
dedico-me agora, em forma menos
acadêmica, a esta espécie de
auto-análise literária, a esta
arqueologia interior, escavando
isso que poderíamos chamar de as
origens e desenvolvimento do
gosto pela leitura, de minha
relação com a literatura, ou
enfim, de minha insanidade
enquanto leitor.
O gosto acima de tudo
A obra de arte literária,
enquanto objeto-livro, só é
apreciada enquanto tal (ou seja,
enquanto obra de arte) fora das
muralhas institucionais. Nenhum
professor, aluno ou crítico lê
literatura enquanto obra de
arte. Para esses, a literatura é
objeto de estudo, de trabalho,
enfim, de ganha-pão. Que possa
as duas coisas, arte e ganha-pão,
mesclarem-se, é possível, mas no
mais das vezes estão a milhas de
distância. Arriscaria mesmo a
dizer que a literatura que
transita pelos corredores
institucionais, acadêmicos
sobretudo, é algo já selecionado,
empacotado e etiquetado com
ismos, espécie de produto de
consumo de professores e
estudantes, críticos e editores,
destinados a teses e
dissertações e objetos de uso e
lucro.
A senhora aposentada que vai ao
sebo comprar um livro velho para
saciar sua sede de leitura, e
assassinar seu tédio, ou o jovem
punk que, no mesmo sebo, fica
abstraído lendo poemas de
Augusto dos Anjos, poeta até
então desconhecido para ele, não
estão movidos por interesses de
estudiosos, não possuem eles
arcabouços teórico-críticos com
os quais farão suas leituras. A
literatura aí, enquanto obra de
arte, é válida pelo seu conteúdo
imediato; se algum verso
desagrada, se o estilo não
empolga à leitura, o livro não é
levado para casa. O que não faz
um estudioso, que normalmente
compra livros “recomendados pela
crítica”, ou pela “área de
estudo” ou pelo “ismo” que lhe
agrada, lamentando quando o
estilo é enfadonho, já que sua
leitura é quase sempre
obrigatória ou de proselitismo,
raramente por um gosto estético
ou ânsia de leitura que, via de
regra, move o comum mortal
amante da leitura literária.
Entre esses últimos sinto que me
enquadro: comum mortal amante da
leitura literária. E é sob essa
perspectiva que me coloco como
observador privilegiado da
literatura, já que além de comum
leitor, sou estudioso
institucionalizado. E, no
entanto, não foi através da
universidade, menos ainda das
aulas em colégios, que me
deparei com a literatura.
Os sebos, lojas de livros
usados, têm um papel importante
nesse meu encontro com esta arte
suprema. O fato de ali se
encontrar obras há tempos não
reeditadas, algumas em grafia
antiga, edições estrangeiras não
encontradas em livrarias (de
novos), e normalmente a preços
muito inferiores aos dos livros
novos, fazem dessas lojas algo
acessível e bem mais atraente,
visto disporem a raridade do
volume único.
Foi num sebo, numa desagradável
tarde nublada, no primeiro andar
de uma galeria isolada no centro
de Desterro, que encontrei um
livro de título sonoro: Mocidade
morta, em página do qual li no
início de um capítulo: “Agrário
caíra numa lúgubre invernia de
espírito, atormentado pela
concubinagem do cambista”. Foi
meu primeiro encontro com a arte
exótica de Gonzaga Duque
(1863-1911). Foi num sebo também
que encontrei um livrinho cor de
vinho, com uma capa horrível,
mas que aberto a esmo mostrou-me
os versos: “Amo as tardes
idílicas do Norte! / As palavras
que nascem sem viver... / Mais
um dia que passa e a minha Morte!”.
Eu me encontrava aí com o poeta
Ernani Rosas (1886-1955). E foi
ainda em sebo que me encontrei
com a obra da escritora francesa
Violette Leduc, com a prosa
profana do americano William
Burroughs, com a poesia moderna
do argentino Leopoldo Lugones,
com a intimista poeta russa Anna
Akhmátova, com a Angústia de
Graciliano Ramos, com a
Confissão de Lúcio de Mário de
Sá-Carneiro, com a Peste de
Albert Camus, com a poesia de
Fagundes Varella, com Gide,
Maupassant, Garcia Márquez,
Gorki, Xavier Marques, Sade,
Tchekhov, Nerval, Saramago,
William Blake, Boris Vian, etc.,
etc..
Ao jovem amante da leitura
literária que eu fora, e sigo
sendo, e sem recursos para
freqüentar livrarias de novos,
coisa a qual passei a freqüentar
somente mais tarde, e tendo
chegado à universidade aos vinte
e quatro anos, me foi de grande
proveito comprar em sebos obras
as mais diversas da literatura
universal, sem outro critério
que o do gosto pessoal, pois que
foram elas que me “formaram”, em
amplo aspecto, em Literatura.
Também a assídua freqüência com
que estive em bibliotecas
públicas ajudou-me muito nessa
formação, que outrora era mui
comum: a formação autodidata.
Pois é esta que tenho em
Literatura. Na universidade,
quase aos trinta anos, formei-me
em Filosofia. Obviamente tenho
também amplo desconhecimento
“teórico” e “científico” da
literatura, pois li muito pouca
teoria e crítica literária. O
que não deixa de ser importante,
pois para mim a literatura
permanece imaculada de
interpretações. Por isso aqui
posso falar como leitor, um
leitor pouco comum, mas ainda
assim um leitor.
Reminiscências
Na minha infância nunca recebi
incentivos para leituras.
Aprendi a ler aos nove anos de
idade, na escola. Na minha casa
havia um único livro: a bíblia
cristã. Meu pai era analfabeto;
minha mãe sabe assinar o nome e
lê precariamente. Quando entrei
na escola meus irmãos dela já
haviam fugido. Guardo, no
entanto, uma lembrança remota
que me parece ser uma primeira
ânsia pela leitura.
Minha mãe limpava o escritório
de uma companhia de seguros.
Lembro-me que um dia, era um
sábado de manhã, um dos
funcionários emprestou-me um
gibi para que eu ficasse quieto,
imagino, pois lembro também da
recomendação dele e de minha mãe,
de que não era para “rasgar”.
Sentei-me no chão, junto à
parede, ao lado de um grande
armário de madeira, e comecei a
folhear o livrinho. Vendo as
imagens coloridas e os balões
com palavras que nada me diziam,
mas que eu sabia algo dizer,
pois minha irmã já me havia lido
gibis antes, o desejo de
aprender a ler apossara-se de
mim. Eu tinha então cinco ou
seis anos de idade, e tive que
esperar mais três...
Nasci no mês de junho, por isso
podia entrar na escola aos seis
anos, mas meu pai achou que eu
era muito pequeno. No ano
seguinte, ele perdeu a data de
matrícula. Quando então eu tinha
já oito anos, ainda sem saber
escrever uma única palavra,
entrei na escola, completando
então, em junho, nove anos. Não
me senti atrasado: ao fim
daquele ano fui premiado como o
melhor aluno dentre todos das
cinco primeiras séries da escola:
ganhei uma bola de futebol e a
certeza de que as outras
crianças do meu bairro eram
muito burras.
Na minha cartilha o a era de
árvore, o b de bola e o c de
casa. Não lembro de ter tido nas
mãos algum livrinho infantil
além da cartilha. Lembro, no
entanto, de uma historinha,
contida na cartilha, que se
chamava Memórias de um cabo de
vassoura e que eu detestava,
primeiramente por ser uma baita
mentira, sabia eu aos nove anos
de idade, que vassoura não podia
ter memória, e depois, por que
era um cabo de vassoura muito
estúpido, pois gostava de ser
útil. Digo isso porque me parece
ser a primeira expressão de meu
gosto literário. Ainda hoje, na
proximidade dos quarenta, não
gosto de histórias
demasiadamente fantasiosas.
Gosto, no entanto de histórias
fantásticas. Penso que há uma
diferença entre ambas.
Outra quebra, de reminiscências
Creio haver alguma importância
em gostar ou não gostar de um
texto. Pois isso define suas
preferências, seus gostos
pessoais, chegando mesmo a
expressar uma atitude diante do
mundo. Minha insanidade como
leitor tem suas peculiaridades.
Certa vez fiquei dois dias sem
comer porque gastei minhas
últimas notas num livro. Isso me
aconteceu por duas vezes. Na
primeira, numa sexta-feira de
inverno, ao passar por um sebo,
encontrei um livro sobre o qual
já havia lido muito, mas que
nunca havia visto, não o
encontrara em nenhuma
biblioteca. Era Os cantos de
Maldoror, do maldito uruguaio
Conde de Lautréamont. Comprei-o,
pedindo apenas um desconto no
valor da passagem do ônibus para
que eu pudesse voltar para casa.
Na época eu dividia um moquifo
com outro estudante que ia para
a casa dos pais no fim de
semana. Como eu não tinha
dinheiro, nem para onde ir,
ficava em casa sozinho, lendo
alucinadamente. Dessa vez, no
entanto, li de barriga vazia até
o domingo à noite, quando meu
colega retornou com a mochila
cheia dos restos do familiar
almoço de domingo. Na segunda
vez que isso me aconteceu foi
por causa da autobiografia de
Luis Buñuel, Meu último suspiro.
Foram-se nesse livro também meus
últimos trocados, e mais dois
dias sem comida. É que por essa
época, 1995 creio, eu ganhava
uma mísera bolsa de trabalho na
universidade, que sempre acabava
antes do fim do mês, e se eu
gastasse com algo que não fosse
comida ficava, como se diz, “a
ver navios”; principalmente nos
fins de semana, quando meus
colegas iam para a casa dos pais
e eu não tinha a quem pedir o
que quer que fosse.
Por essa época, só para
acrescentar mais uma
reminiscência de minha
insanidade como leitor, o
estudante que dividia o moquifo
comigo era um sujeito com séria
dificuldade para se concentrar
na leitura de um livro, o que o
impossibilitava de concluir a
leitura de qualquer livro. Para
incomodá-lo, eu fazia uma lista
dos livros que iria ler e colava
na parede do quarto, à medida
que ia lendo, ia fazendo um
sinal. E os sinais sobre os
livros lidos aumentavam
semanalmente. Durante dois meses
de férias, janeiro e fevereiro
de 1995, eu li o Ulisses de
James Joyce, fazendo intervalos
em que li uma lista estabelecida
antecipadamente com oito livros,
entre os quais dois romances de
Aldous Huxley, Kafka, Cortazar e
outros que já não lembro. Foi o
ápice de minhas afrontas ao
pobre coitado que não conseguia
chegar ao fim de nenhuma leitura.
Detalhe que me parece pertinente
acrescentar: esse estudante
posteriormente se tornou
professor.
É preciso estar possesso
Eu disse que odiava as Memórias
de um cabo de vassoura porque
era visivelmente falsa. Talvez
eu já fosse velhinho demais aos
nove anos para ter que ler tais
histórias, mas penso que o
motivo é outro, pois que o tenho
ainda dentro de mim: o gosto
pelo que me leva para longe, e
que não seja mera fantasia. A
grandiosidade da literatura para
mim está no fato de me convencer
de uma veracidade, de algum
acontecimento, de um correr de
um tempo outro que não é o meu.
Por isso sinto certo desprezo
pela literatura realista.
Vassouras são algo
demasiadamente familiar. Ler o
que se passa do outro lado da
rua, de tipos que são como meus
vizinhos, como pessoas que me
são próximas, é demasiadamente
enfadonho, e de enfadonho já me
basta a realidade da vida, ou da
existência, se se preferir um
sentido metafísico a este fado.
Muitos dos livros que li me
foram profundamente
transformadores, primeiramente
por serem perturbadores, e
depois, por serem dominantes, no
sentido em que me dominaram o
espírito. Deles fiquei possuído.
Considero, no início de minha
formação como leitor, um
conjunto de livros que me
transformaram e, em algum
sentido, me instruíram bastante.
Dois romances de Aldous Huxley,
Geração Devassa e As despedidas
estéreis, um romance de Jean-Paul
Sartre, A náusea, uma novela de
Albert Camus, O estrangeiro, e,
em segundo plano, três anti-utopias:
A laranja mecânica de Antoni
Burgues, 1984 de George Orwell e
Admirável mundo novo do já
referido Aldous Huxley. Depois
da leitura dessas obras, lidas
quase que na seqüência, deixei
de ler místicos com Paulo Coelho
e Carlos Castañeda, romances
políticos, como os de Fernando
Gabeira, e romances policiais,
abandonando até mesmo as
leituras da dama do crime:
Agatha Christie, da qual li 16
livros. Entre as obras
individuais que me deixaram,
literalmente, contaminado em
épocas diferentes de minha vida
e que me marcaram desde então,
que foram lidas com a máxima
insanidade, posso listar: Os
cantos de Maldoror, já
mencionado; o romance Mocidade
morta de Gonzaga Duque, livro
que me arrastou os olhos para os
“nacionais”; a singular peça de
Samuel Beckett, Esperando Godot;
A filosofia na alcova do divino
Marquês de Sade; O almoço nu e,
mais recentemente, Cidades da
noite escarlate, ambos de
William Burroughs; o longo poema
de Allen Ginsberg, Uivo; O
casamento do céu e do inferno de
Willian Blake; a poesia
decadente de Augusto dos Anjos;
e os contos alucinantes de
Adelino Magalhães.
Mas como ao longo do tempo, e
das leituras foras do tempo,
modificamos-nos e nos tornamos
mais exigentes e seletivos,
penso agora também em algumas
das obras lidas nos dois últimos
anos, sob o domínio das quais
estive por horas e dias a fio:
Akhenaton: a história do homem
contada por um gato, do
historiador Gerard Vincent; A
erva vermelha de Boris Vian;
Vaca de nariz sutil de Campos de
Carvalho; Contos reunidos de
Gastão Cruls; e A Eva futura de
Villiers de L`Isle-Adam.
É claro que essas listagens não
são completas e nem muito certas,
visto os efeitos do tempo sobre
a memória. Mas o simples fato de
ainda agora eu lembrar de
personagens, de situações, mesmo
de emoções que senti na época em
que os li, fazem sua importância
sobre meu espírito. Pensando que
li doze livros de Gabriel Garcia
Márquez, uns quatro ou cinco de
Julio Cortazar, todos os
romances de Graciliano Ramos,
inumeráveis contos de Guy de
Maupassant, de Tchekhov e de
Gorki, além de Edgar Poe,
Pushkin, Rodenbach, Jack London,
Jean Lorrain, H. G. Wells,
Chamisso, Mérimée, Bioy Casares,
Kleist, etc., etc., não sei
dizer o quê disso tudo me
permaneceu na memória, mas sei
que sempre me lembro de alguma
história em conversas com amigos
ou em situações do dia-a-dia. E
de autores muito pouco
conhecidos tenho registros
memoriais que me parecem
eternos. Como a lembrança que
tenho do absurdo e maravilhoso
conto de Marcel Aymé, O cupom do
tempo, do livro O passa-paredes.
Com tantos nomes, tantas
histórias, a literatura parece
ser um vasto mundo paralelo ao
nosso fútil mundinho mercantil.
Os livros são passagens para a
vastidão do desconhecido, portas
que abrimos para mundos muito
diferentes do nosso. E quando o
livro nos encarna é possível que
agimos como aquele patético
personagem de Italo Calvino, em
Aventura de um leitor, que
enquanto a mulher conquistada na
praia tira a roupa, ele ainda
aproveita uns segundos para
poder ler mais algumas linhas...
?
Penso naquele triste poeta
apaixonado por uma prostituta
que conheci numa tarde em Paris,
em A canção dos loureiros de
Eduard Dujardin; penso no menino
que ficou amarrado pela cintura
no fundo de uma mina de carvão
em Lota, Chile, em La compuerta
número 12 de Baldomero Lillo;
penso no sangue frio do
inesquecível Lafcádio, de Os
subterrâneos do Vaticano de
André Gide; penso no excitante
vestido vermelho de mãe Dolores,
em Sobras de Deus de Floriano
Martins; penso na senhora que
cuida de uma boneca que lhe
deram em substituição à filha
morta, em La señora de Del Pino
de José Pedro Bellan; penso na
angústia de Gerard de Nerval
trancafiado numa casa de saúde,
em Aurélia; penso em Tonio
Kröger vendo juntos a mulher que
ele amava com o homem que ele
amava – dupla impossibilidade –,
de Thomas Mann; penso no infeliz
destino do enfermeiro Silvino,
em G.C.P.A. de Gastão Cruls;
penso na indignação de André
Breton contra os psiquiatras, em
Nadja; penso no boêmio poeta
apaixonado por Niní, em O
pássaro azul de Ruben Darío;
penso no adorável burrinho de
Juan Ramón Riménez, em Platero e
eu; penso no homem que desafia a
ciência moderna duvidando da
existência dos átomos, em A vida
dos átomos de Pío Baroja; penso
nas inúmeras noites sozinho ou
na companhia de um amigo, com
vinho e maconha, lendo e relendo
poesias de Georg Trakl,
Junqueira Freire, Paul Verlaine,
César Vallejo, Maiakovski, Cruz
e Souza, Benjamín Péret, Joaquin
Pasos, Florbela Espanca, Arthur
Rimbaud, Olga Orozco, Garcia
Lorca, Bocage, Alphonsus de
Guimaraens, Lucian Blaga, Castro
Alves, Charles Baudelaire,
Marcello Gama, Novalis,
Konstantinos Kaváfis, Emiliano
Pernetta, George Bacovia ou
outro bardo iluminado, e concluo
que a insanidade é inerente à
literatura. Sem insanidade não
haveria literatura, talvez
apenas parnasianismo, formalismo
e concretismo, um mundo árido e
leitores universitários.
NOTAS
1. GAUTIER, Théophile. Contos
fantásticos. Tradução de Geraldo
Gerson de Souza. São Paulo:
Imaginário/ Primeira Linha,
1999; p.45.
2. Artigo publicado nos Anais do
VII Seminário Internacional de
História da Literatura,
Faculdade de Letras – PUCRS;
coord. Maria Eunice Moreira. –
Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008.
Camilo Prado é escritor,
tradutor e editor das Edições
Nephelibata. Atualmente é
doutorando em Literatura na UFSC,
com tese em tradução da obra
Tribulat Bonhomet de Villiers de
L’Isle-Adam.
nephelibatas@gmail.com
http://www.revista.agulha.nom.br
http://www.revista.agulha.nom.br/ag69prado.htm
Gentileza:: Floriano Martins
[floriano.agulha@gmail.com]
paginadigital |